SABÃO, ARTE E FILOSOFIA

sexta-feira, 3 de julho de 2009

A vida pode acabar em fumaça!!!

Sabão, arte e filosofia

Hoje vou lhes passar um conto, uma prosa “quem sabe..?”, mas nem de longe a prosa lírica do Magistral Fernando Pessoa, todavia, um “causo” no estilo do próximo e querido Rolando Boldrim, homem que cheira simpatia ao menos por uns sessenta quilômetros de distância, mas não um “causo” alegre, um “causo” emocionante. Vamos a ele:

Lá por volta dos anos 60, conheci um rapaz, jovem saudável educadíssimo, de família que conhecia os valores morais, sabia perfeitamente os limites da liberdade e dignidade.

Era óbvio que esse menino “adulto” fora criado sob essa égide de preceitos e, aparentemente, o resultado floresceu.

Porém, como todo “garoto” dessa idade (uns dezessete, talvez?), fazia parte de um grupo de amigos do bairro e da escola, o que jamais deixou de ser normal..

Um dia; convidado para uma “balada” (festa-baile, na época, designação concebida ou divulgada pelo “fenomenal” Agnaldo Rayol, vê se pode..?); lá se apresentou todo arrumadinho com a calça xadrez (boca-de-sino) da moda, camisa de gola “rolon”, sapato do tipo mocassim e por aí afora...

Dançou ao som da “vitrolinha” que tocava “Beatles”, “Pepino di Capri” e o rei, nada menos que “Roberto Carlos”, depois de muitas “Crushes”, “Q’Sucos” e “Grapetes” acompanhadas dos “acepipes” do tipo D. Benta ou Tia Nastácia do saudoso Monteiro Lobato (...Não esse “grobal” que ainda vive todo torto, descabido e nem sabe quem “se é”...), o verdadeiro, o que vivia o mundo da criança com o coração, não com a “mídia” cretina que vemos hoje.

Altas horas (naquele tempo, umas onze da noite) foi abordado pelos “amigos espertos” que o “convocaram”: -- “... oh boy!! Vai um cigarrinho???”

-- ... sem essa, não quero, meu pai falou que cada porcaria dessa que se fuma consome cinco minutos de vida...

--“... Ta besta sô, que história é essa?..

A esta altura dos fatos um dos garotos já punha a mão na garganta e fingia sufocação falando:

-- “... Ah!Ah!Ah! Estou morrendo, pois o número de cigarros que já fumei multiplicado por cinco minutos já levaram toda a minha vida...

Irritado e desafiado o incauto tomou da mão do “marmanjo” o cigarro oferecido e pediu o “Ronson” para acendê-lo. "...Que diferença farão cinco minutos na hora da minha morte??", pensou!

Dito e feito, o efeito foi bombástico; primeiro cigarro, inúmeras tragadas (é claro que não tragar era coisa de “bicha”, só “prá” dar visual), a “zonzeira” o abraçou, o torpor foi assustador, mas a sensação era de conforto, a cabeça girou, girou,.. e, por fim, ele sentou num canto qualquer deixou cair a “bituca” e lá se prostrou por mais de quarenta minutos.

A rapaziada satisfeita o largou, ele passara na prova de fogo dos “machos”!

Depois desse evento, nunca mais tocou um cigarro, o falso prazer não lhe “disse” nada, chega, caso encerrado.

Soube depois dele.., homem honrado e responsável aos vinte e cinco anos, veio a casar-se com uma das mais lindas meninas do “grupinho” da “nossa esquina”.

Uns três anos depois conceberam uma criança, um lindo garotão, forte como um touro (provável herança genética) que o amaram com todas as suas forças.

Essa criança cresceu e veio a ser um valoroso jovem altamente qualificado profissionalmente.

Como seria de se esperar, logo lhe apareceu uma magnífica proposta de trabalho.

Júbilo dos seus pais, meus amigos, mas, “como toda coisa boa tem que ter açúcar ou sal e, quem sabe? uma pitadinha de pimenta...”, a grande corporação, um complexo de porte multinacional propunha um contrato para ser cumprido no “Velho Mundo”, Europa.

Pai e mãe com os corações partidos e em desespero sorriram até em demasia, incentivaram e quase empurraram o “bambino” “prá” fora. O que são uns poucos anos diante de uma vida?

À noite ninguém dormiu, o menino de emoção e os pais aos prantos silenciosos dando graças a Deus pela grande “oportunidade”.

Mal se passaram dez dias e lá ia o rapaz sinalizando adeus na “janelinha” do avião.

Soube um bom tempo depois que os traços do nosso “pincel” jamais coincidem com o trajeto do traçado da vida no nosso quadro existencial.

Vinte e oito anos fluíram, o velho e a velha já demonstrando fortíssimas marcas da idade, mal tinham tido quatro ou cinco encontros com seu “bambino”, uma vez lá e outras cá.

As Pálpebras do “velho” mostravam todas as cicatrizes da “costura a pregos e cordão de sapato” que seguravam aquele coração que partido, mais parecia ter sofrido uma “angina bi-ventricular” (daquelas que jamais se sobrevive).

Mas ele estava lá, sabia que tinha dois netos cuja fortuna do filho lhe cobrara a mais completa ausência, e a dor do espírito crescia vigorosamente.

Sem dúvidas, o leito de morte se apressou em lhe procurar e nele ele deitou-se com a dignidade do dever cumprido e, por falta de outra possibilidade, observa “Caronte, o barqueiro” fazendo sua viagem no horizonte em sua direção, de fato, já vislumbrava a simbologia do óbulo sob a língua.

Então sonhava;.. via-se diante das margens do Aqueronte (o rio das almas) esperando seu momento de embarque e dizia-se: -- “... se eu pudesse ao menos uma última vez cruzar o meu olhar sem nada dizer com o olhar do meu amado filho; Caronte abandonaria sua trágica missão e eu seria embalado em um “lençol” de mil fibras por trama, mais leve que pluma de asa de anjo e seria levado pela brisa suave até a outra margem para encontrar os amigos e ancestrais que me amam.

E, como sempre nesses momentos, sem saber se essa é uma atitude “bendita ou maldita” alguém se lembra de avisar os parentes e é óbvio que o filho assustado e em desespero loca com facilidade um jato particular (sua prosperidade cobrou, mas lhe entregou a contraprestação) e em menos de hora inteira já embarcava em direção a casa dos pais.

No aeroporto, soube mais tarde, um helicóptero já o aguardava, ele iria cruzar aquele olhar com o pai, pousou praticamente na porta de casa!

Correu pelo portão, tirou uma chave do bolso que sequer lembrava-se dela por mais de vinte e cinco anos e em menos de um segundo atravessava a sala e adentrou os aposentos do agonizante.

Sua mãe, me contaram,.. olhou-o com olhos cheios de brilho de felicidade por vê-lo e num misto de agonia delirante lhe falou: -- “... tem menos de cinco minutos que ele se foi, só estou feliz por tê-lo aqui por consolo...”.

Em seguida, debaixo de uma “chuva” de lágrimas do filho, lhe transmitiu um pedido estranhíssimo que o pai lhe fizera segundos antes de se entregar ao barqueiro, pois este soubera que o filho estava a “galope” vindo ao seu encontro.

Disse ela; -- “... Ele me apontou o dedo indicador e dobrando-o me chamou bem perto de sua boca, me deu um beijo e falou; -- a diferença entre a vida e a morte do nosso filho está nestas duas perguntas que você lhe fará! E disse; -- primeira pergunta: Durante toda a sua vida algum amigo lhe oferceu um cigarro? E; Você aceitou????????????

Marcus Siviero

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