SABÃO, ARTE E FILOSOFIA

quinta-feira, 19 de abril de 2012

CAPÍTULO IV

Capítulo IV

Viabilidade econômica,

industrialização

A indústria de saponificação conta com matérias-primas relativamente abundantes, exige espaço proporcionalmente reduzido em relação à alta produtividade obtida, requer, entretanto, grande experiência, adquirida em muito tempo de contato com esta técnica e largo conhecimento tecnológico para investir em qualidade e alta produção, duas características que até podem ser obtidas comercialmente através de técnicos especializados, porém, a um alto custo financeiro e grande demanda de tempo, ao contrário do que possa parecer, a verdade é que esse fator é de aspecto bastante positivo do ponto de vista econômico, restringindo e muito, a investida de “aventureiros” ao ramo, possibilitando assim, um mercado equilibrado e previsível.

A automação do parque mecanizado atual e os sistemas lineares de produção, possibilitam a utilização racional e controlada de mão-de-obra, proporcionando assim, um rendimento altamente compensador e grande flexibilidade financeira entre os custos na origem e os valores atingidos pelos materiais no mercado consumidor.

Aos mercados de demanda dos produtos dessa indústria, torna-se, logicamente, desnecessária uma abordagem, uma vez que um dos pilares da civilização não deixa de ser, a higiene.

4.1 – Industrialização:

4.1.a – processamento linear

A indústria atual opera largamente apoiada em sistemas dirigidos e condicionais, onde se determina desde o primeiro contato com as matérias-primas (e isso refere-se até mesmo ao conhecimento da existência destas), condições de manipulação, aspectos físicos, viabilidades técnicas, industriais, comerciais, econômicas, etc... Baseados nesses princípios, aprimoram-se os procedimentos dinâmicos e os equipamentos de modo tal, que se possa operar seqüencialmente o produto e com o mínimo contato manual até a saída deste das unidades fabris.

Os equipamentos empregados a esses processos industriais, serão comentados à medida que se desenvolver o assunto correspondente, e quando necessário se verá um esquema com a idéia aproximada das suas funções.

O processamento industrial estará sendo descrito em ordem de interesse prático, devendo-se salientar que a orientação adotada visa um sistema vertical e, portanto, poderá ser iniciado ou findo em vários estágios um determinado ciclo independente, sendo considerado, este ciclo, uma “indústria” intermediária, como um dos elos de uma corrente.

4.2 – Matérias-primas básicas e periféricas:

Deve-se tratar, inicialmente, das matérias-primas básicas, pois derivam-se delas os vários produtos de consumo, as secundárias ou periféricas deverão ser comentadas conforme o momento de aplicação, desse modo se tem um contato mais proveitoso com a leitura dos próximos capítulos.

4.2.a - Materiais graxos; obtenção e tratamento

Origem vegetal e animal:

a) origem vegetal: - Iniciaremos as considerações a partir das sementes oleaginosas em fase de recebimento para estocagem industrial.

b) Procedência: - Fator de extrema importância é a procedência das “oleaginosas”, portanto, o momento da compra é decisivo quanto à condução da operação toda. Observações muito importantes são: - a verificação do teor de umidade geral das sementes, quantidade de resíduos estranhos, material já em estado de fermentação (mínimas quantidades contaminam lotes inteiros).

c) Estocagem: - O material recebido deve, obrigatoriamente, ser estocado em local seco e bem arejado, livre de insetos e, principalmente, roedores, não ficar em contato direto com o piso (deve ser paletizado) e esse piso deve ser, no mínimo, cimentado. O material adquirido deve ser compatível com a produção pretendida, para ficar o menor tempo possível estocado cedendo, depois de completamente limpo, o lugar, espaço para novas partidas. (Esquema de secador prévio e silo de armazenagem pág.72 e 73)

4.2.b – Preparação das sementes para extração:

As oleaginosas, inicialmente, devem ser separadas de resíduos, cascas ou quaisquer impurezas (separador pág.74). Em seguida, serão quebradas em pequenas partículas e, brandamente aquecidas (triturador pág.75). É muito conveniente que sejam laminadas (laminador pág.75), para uma abertura eficiente dos alvéolos celulares que contêm o óleo. Evitar a moagem que produza pó, pois este provoca a dispersão por capilaridade em elevadas proporções, provocando perdas desnecessárias do material na “torta” de extração.

4.2.c – Extração, solventização ou mecânica?

a) Solventização: - O processo de extração por solventes pode ser contínuo ou não. Nas pequenas instalações costuma-se empregar o sistema descontínuo, i. é, por bateladas ou lotes, onde se dispõe de equipamento apto a executar um “banho” por imersão no solvente escolhido, de uma determinada quantidade de sementes, estas baterão por algum tempo em várias etapas (extrator pág.76), com o solvente sempre limpo até estarem completamente isentas do óleo, serão, então, secas e separadas para comércio próprio (adubos, rações, etc..). Os solventes mais comuns são: - álcool, tricloroetileno, sulfeto de carbono, a hexana, etc..

No Processo contínuo (extrator pág.77), o sistema utilizado é a contracorrente, onde se dispõe o material oleaginoso percorrendo em um sentido e o solvente em sentido oposto. Os equipamentos diferem apenas no modo em que executam essa operação.

Nos dois casos, contínuo ou não, o óleo obtido, que se encontra dissolvido no solvente, é recuperado por destilação, preferencialmente sob vácuo.

b) Mecânica: - A extração mecânica é o processo mais difundido, desde as pequenas até as grandes unidades extratoras industriais, ainda que na extração de grandes volumes costuma-se usar a extração por solventes do resíduo oleaginoso que fica retido na “torta” de prensagem, este gira ao redor de 5%, o que é muito nas grandes refinarias.

No sistema de lotes ou bateladas, nas pequenas instalações, utiliza-se equipamentos hidráulicos ou de aperto em parafuso, onde o material é esmagado em várias etapas por muitas horas aumentando sempre a compressão sobre este, o óleo escorre para o reservatório e aguarda tratamento ou transporte. O processo é ineficiente, permite perdas enormes, da ordem de 20% para mais e, para diminuir um pouco essa perda, o custo torna-se impraticável. No entanto, essa prática é bastante utilizada nos pequenos sítios ou fazendas ou ainda, nas indústrias artesanais de locais afastados dos grandes centros.

A prensagem contínua é de alto rendimento e sem riscos (incêndios, caso dos solventes). É praticada em larga escala e considera-se, ainda, que a “torta” de extração é altamente valorizada para produção de ração animal, o que chega a compensar o resíduo oleaginoso que importa em, aproximadamente, 5% do total de óleo disponível nas sementes (cozinhador e prensa, págs.78 e 79).

A prensagem contínua não deixa traços de solventes no material extraído, não havendo, portanto, necessidade de destilação, o que é, na verdade, um processo de alto custo. O produto obtido da prensagem é, acima de tudo, de ótima qualidade, tendo sempre a preferência do consumidor, (Esquema de um Expeller pág.79).

A próxima etapa é o tratamento do material obtido na extração. Antes, porém, na seqüência dos esquemas à pág. (79) dedicaremos os parágrafos que lá virão, aos comentários sobre a gordura animal.

Secagem para estocar sementes

Fig. 5 – Processador de secagem prévia

Estocagem de oleaginosas

Fig. 6 – Silo de armazenagem

Separação prévia para extração

Fig. 7 – Separador de resíduos por aspiração

Laminação e quebra de sementes

Fig. 8 – Triturador e laminador

Extração por etapas

Fig. 9 – Solventizador seqüencial

Extração contínua

Fig. 10 – Extrator (Sistema Smet)

Pré-aquecimento das sementes

Fig. 11 – Cozinhador de sementes

Prensagem contínua de sementes

Fig. 12 – EXPELLER – Extrator contínuo

1. 4.2.d – Gorduras de origem animal:

Tradicionalmente conhecida como “sebo”, é encontrada como subproduto dos abatedouros, frigoríficos, curtumes, aproveitamento de ossos e similares. Tem várias origens, a se destacar: - os bovinos, os suínos, caprinos, peixes, aves e outros de menor importância. Entende-se como sebo, o material gorduroso encontrado, principalmente,na cavidade abdominal, rins e epíploo dos ruminantes, nas espécies em destaque neste. (ver fluxograma, pág.83).

Os maiores produtores mundiais de sebo são a Austrália, América do Sul e Estados unidos da América.

Como o sebo é subproduto de outro tipo de indústria, trataremos apenas de como se deve exigi-lo para posterior tratamento e como acondiciona-lo nos estoques.

Os índices e análises mencionados a seguir serão tratados em capítulo próprio. Devemos, entretanto, executa-los, principalmente, quando se produz em larga escala.

As análises de interesse na hora da compra e recebimento de quaisquer matérias gordurosas são; - amostragem média de cada lote, determinação da textura aparente, determinação dos pontos de fusão e solidificação, determinação do peso específico, título dos ácidos graxos, teor de água, impurezas e cinzas, índice de saponificação, índice de acidez, grau de desdobramento, índice de esterificação, composião da gordura, peso molecular médio, rendimento em glicerina, oxiácidos e ácidos graxos aproveitáveis na saponificação, separação do saponificável na gordura total, determinação do insaponificável, índice de saponificação dos ácidos graxos puros e, por fim, o índice de iodo.

Considera-se que as análises até a determinação do índice de acidez sejam práticas e de importância capital para a segurança da qualidade do material recebido ou preparado para produzir. De resto, deve-se dar o máximo de atenção, porém, podem ser executadas durante os processos de produção criando condições para adaptação dos métodos aplicados no processamento e para exigir nas próximas aquisições padrões compatíveis com a qualidade pretendida.

Com o recebimento do material efetuado, devemos proceder a estocagem para posterior utilização tendo em mente que o contato prolongado com o ar e a luz leva sempre qualquer gordura ou óleo, principalmente de origem orgânica, ao “envenenamento” destes no que refere a sua integridade original.

Quando o material recebido estiver embalado em tambores de ferro, ou como alguns produtores de gordura (material sólido em temperatura ordinária) costumam, em embalagens de filme plástico ou papel (sacos de 50 kg normalmente), deve-se proceder a estocagem em local limpo , seco, fresco e com pouca ou nenhuma iluminação constante no caso dos sacos, colocando-os sobre “pallets” (estrados de madeira ou plástico) e, se tratando de entrega a granel devem existir containeres compatíveis com a estocagem pretendida.

Quando o fornecimento é a granel, sua estocagem deve ser imediata. Os tanques devem estar bem limpos e, preferencialmente, sem resíduos ou restos da estocagem anterior (usa-se vapor para essa finalidade). Devem, ainda, conter bombas de drenagem ou ficarem em local onde a gravidade possibilite o escoamento natural. Serão , também, providos de sistema de aquecimento interno (serpentinas ou encamisamento para vapor). Devem, principalmente, ser herméticos, com exceção de uma válvula compensadora para o escoamento, esta deve ser regulável para manter uma leve depressão. No caso de estocagem de óleos (material líquido), onde não é necessário o sistema de aquecimento, não é aconselhável o uso de “containeres” (tanques) transparentes ou leitosos, a não ser que estejam enterrados ou em local sem iluminação alguma.

Ainda que os comentários acima foram dirigidos particularmente ao sebo, gordura de origem animal, principalmente a bovina, por questões de predominância, as análises e cuidados indicados cabem a todas as matérias graxas cuja finalidade precípua seja a saponificação.

Fluxograma de distribuição do abate

4.3 – Tratamento dos óleos e gorduras:

Tanto faz extrair ou comprar gorduras, o tratamento é obrigatório. É, também, a fase mais delicada e carente de cuidados para obtenção de um material de características definidas, padrão elevado e, principalmente, constante, isso porque, nada é pior na indústria, do que operar a cada momento com um material diferente para uma mesma finalidade. O quadro agrava-se, e muito, quando a qualidade oscila para baixo no padrão já definido para produção.

4.3.a – Refinação:

Refinação é o nome que se dá ao conjunto de operações necessárias à obtenção de óleos e gorduras de qualidade superior, isentas de impurezas e características depreciativas, tornando evidentes suas qualificações positivas peculiares, tais como; aroma, paladar, cor, brilho, etc.. Existem alguns óleos em particular que, conforme os cuidados dispensados quando da extração (no caso, sempre mecânica), podem ser, simplesmente filtrados, apenas cuidando que sejam embalados imediatamente em recipientes estéreis. Alguns exemplos são: - azeite de oliva, gordura de coco, óleo de amendoim, óleo de rícino (mamona), estes são conhecidos como “azeites ou óleos virgens”. Observamos, entretanto, que essas, são exceções raras, e o material de extração é exaustivamente selecionado e mais, todo o processamento de extração e embalagem é quase “cirúrgico” no que refere a cuidados, porém, o seu valor de mercado sempre justifica tal empreendimento.

O refino completo se processa, normalmente, em quatro operações básicas, a saber; filtragem, neutralização, clarificação e desodorização. Existe, ainda, um procedimento a parte quando se deseja obter gordura de um óleo. Pratica-se, para essa finalidade, a hidrogenação. Como este capítulo está sendo diretamente dirigido à fabricação de sabões, teceremos comentários às duas primeiras operações ou fases, deixando para capítulo próprio as fases seguintes.

4.3.b – As 4 fases:

Depuração ou filtragem

Essa é a primeira operação de refino para uma gordura, mesmo que após as outras fases seja recomendável uma filtragem final com a finalidade de abrilhantamento do óleo obtido. Essa filtragem pode ser executada por três métodos diferentes e um tratamento posterior para a retirada dos materiais dissolvidos.

O primeiro e mais antigo processo, é o da decantação, este é feito em tanque próprio com fundo afunilado. O material descansa por várias horas ou mesmo dias. Assim, os elementos estranhos de maior densidade vão ao fundo e são retirados através de válvula própria. Esse procedimento, entretanto, é demasiadamente lento e, também, ineficiente, tanto mais quando o tratamento é dirigido às gorduras que necessitam calor para permanecerem líquidas e com isso as partículas mantêm-se em suspensão indefinida, indo ao fundo apenas as muito pesadas. Esse procedimento acaba por ser, definitivamente, desinteressante para a indústria.

O segundo método, ao contrário, já atende as exigências bem a contento. Consiste em se fazer a filtragem do produto, que é efetuada em um equipamento conhecido como “filtro-prensa” (esquema do filtro à pág. 88). Este executa a operação em grandes volumes e pode operar em regime contínuo, desde que, é lógico, se disponha de duas unidades, no mínimo, para que sejam alternadas na troca dos elementos filtrantes de um deles.

O terceiro método, é tanto ou mais eficiente quanto a filtragem. Fala-se da centrifugação. Dispõe-se para tal tarefa, das chamadas “super-centrífugas” (esquema à pág.89), que produzem, ininterruptamente, volumes imensos de material, sendo desligadas apenas vez por outra para uma eventual manutenção. São equipamentos de alto custo, porém, de retorno muito rápido se a demanda for compatível.

O tratamento ulterior da depuração é considerado uma lavagem do material pré-filtrado. A finalidade dessa operação intermediária é retirar do óleo as gomas, mucilagens e as lecitinas (normalmente chamadas de finos), que são materiais inúteis e depreciativos às gorduras, mas de grande valia para as indústrias farmacêutica, alimentícia e cosmética.

Entre os vários sistemas aplicados (vapor saturado, aquecimento a 300°C ou agitação com soluções de ácido sulfúrico), o procedimento predominante atualmente é a “lavagem” ou seja, na proporção de 1% a 2% da gordura total, prepara-se uma solução de sais minerais ao ponto de saturação com qualquer desses materiais; cloreto, bicarbonato, carbonato ou fosfato de sódio ou ainda, cloreto de cálcio, sulfato de alumínio e até, ácido clorídrico.

A temperatura da solução deverá estar em equilíbrio com a do óleo sendo jateada com boa pressão e lentamente em forma de chuveiro sobre a massa de óleo sob agitação intensa por tempo suficiente para se observar uma emulsão aquosa (água em óleo), o que permite um amplo contato superficial entre os materiais. Mantendo-se ainda, a agitação no tanque, deve-se recalcar para uma nova centrifugação, deixando dessa maneira, o óleo pronto para a próxima etapa, a neutralização.

Filtro prensa

Fig. 13 – partículas ficam retidas nas placas

Super centrífuga

Fig. 14 – Depuração por centrifugação

Neutralização

Esta é a segunda operação mais importante para obtenção de um óleo refinado. Na verdade, em certas condições, ela é suficiente e supre as próximas duas operações. Quando bem conduzida, a neutralização, não só são eliminados os ácidos graxos livres (o que mais deprecia um óleo), como também se obtém as características positivas que, normalmente, se consegue apenas após as próximas operações (neutralizadores págs.92 e 93).

Há mais de uma via para se neutralizar uma gordura. Estão divididas em processos químicos e físicos, destacando-se entre os químicos a neutralização alcalina e entre os físicos a destilação por arraste com vapor dos ácidos graxos livres, o primeiro procedimento, no entanto, é o mais difundido, por ser o mais prático e o de menor custo operacional.

O método alcalino consiste em utilizar a soda cáustica (NaOH) dissolvida em água na proporção de 8 a 35% ou seja, entre 10 e 40°Bé (Baumé), conforme a qualidade do óleo a ser tratado. É conveniente a execução de alguns experimentos empíricos com amostras do óleo em processo.

Após efetuados os cálculos e as observações experimentais chega-se à conclusão da necessidade de uma quantidade pouco acima da obtida nos cálculos. A observação constante e o hábito de calcular as várias alternativas permitirão, ao profissional, conhecer uma espécie de “macete” prático. É que quando se tem lixívia à temperatura de aproximadamente 25°C e esta estiver em concentração de 20°Bé (conferir com o areômetro), pode-se aplicar em percentual, exatamente o mesmo número do índice de acidez (AGL) ou seja, o índice de ácidos graxos livres, como segue:

(AGL) Lixívia (20°Bé)

1% 1%

2% 2%

3% 3%

Fica claro porém, que se o índice de acidez ultrapassar muito desses valores, o produto já deveria ter sido recusado na aquisição ou então, dirigido a outros fins, caso contrário, a perda torna-se economicamente irrecuperável. O procedimento seguinte é o mesmo utilizado para a lavagem da operação anterior, sem a necessidade dos sais e mantendo a temperatura ao redor de 60°C.

Neutralização por lotes

Fig. 15 – Solventização por “chuva”

Neutralização contínua

Fig. 16 – Processador de alta produção

Clarificação e desodorização

Os processos de clarificação e desodorização virão descritos em “materiais graxos” (Cap.IX).

Um fluxograma de refinação de óleo ou gordura vem detalhado abaixo.

Hidrogenação

A hidrogenação, como já foi comentado, é um procedimento paralelo ao refino que amplia, largamente, o leque do consumo industrial de todos os tipos de óleo, possibilitando total flexibilidade de escolha e melhorando sensivelmente a relação custo-rendimento.

Esse processo consiste em baixar ou eliminar totalmente as duplas ligações na cadeia carbônica dos óleos (material líquido) acrescentando hidrogênio a estas (tornam-se sólidos).

É aconselhável praticar a hidrogenação após as duas operações primárias de refino acima descritas (filtragem e neutralização), isso por razões simples, evitar ao máximo a contaminação dos catalisadores e obter um produto final de alto padrão de qualidade.

A seguir se descreve sucintamente o processo de hidrogenação:

- Com o óleo em uma autoclave própria (ver figura pág.97), inicialmente, deve-se proceder à secagem, bastando para tanto a elevação da temperatura (pouco mais de 100°C) sob vácuo durante aproximadamente uma hora (marcar tempo depois de atingida a temperatura desejada), a partir daí adiciona-se o catalisador na proporção de (0,1%), no máximo (níquel em pó), liga-se o agitador e eleva-se a temperatura para um máximo de 130°C (não ir além), abre-se o jato de H2 (hidrogênio) no fundo do tanque, mantendo a partir de então, circulação de água fria pela serpentina ou encamisamento do equipamento o que irá evitar o superaquecimento na reação (nunca permitir mais do 140°C, o que já é arriscado). Esse procedimento deverá ser mantido até que o ponto de fusão desejado for atingido. Para se conhecer o momento de parada basta verificar, periodicamente, o índice de refração, pois este tem relação direta com o índice de iodo e é mais facilmente obtido.

Para se obter texturas variadas do material solidificado, costuma-se, na prática, misturar óleo refinado ao óleo hidrogenado em proporções predeterminadas.

Após a hidrogenação é condição obrigatória a prática da neutralização, antes porém, o produto deve ser filtrado para a recuperação do catalisador e isso se faz na passagem da autoclave para o tanque de neutralização.

É sempre saudável lembrar que o manuseio de hidrogênio é de altíssimo risco de explosões e sofre rigoroso controle oficial.

Óleo sendo saturado

Fig. 17 – Processo de hidrogenação

Não devemos a este ponto, considerar o estudo dos materiais graxos esgotado, como porém, a pauta neste compêndio objetiva a saponificação industrial, já dispomos por hora de subsídios suficientes para trilhar com segurança o caminho almejado. Teceremos comentários, portanto, sobre a segunda matéria-prima básica nas linhas a seguir, produtos alcalinos ou bases.

4.4 – bases:

Os próximos parágrafos serão reservados aos comentários referentes às bases (materiais alcalinos) e, com isso, orientar o Leitor para que este obtenha a neutralização dos ácidos graxos produzindo a saponificação e, finalmente chegando ao sabão. Serão considerados os materiais de uso mais comum nas fábricas, suas finalidades, cuidados ou precauções, manipulação e estocagem.

O hidróxido de sódio

É conhecido, na prática, como soda cáustica, é produto encontrado em abundância no mercado, hoje é produzido, exclusivamente, a partir do cloreto de sódio (sal marinho), este é processado em uma unidade celular ligada a uma fonte geradora de corrente contínua (normalmente de diodos de selênio, silício ou germânio), o material produzido escorre continuamente em soluções concentradas que vão para os “containeres”, caminhões-tanque, tambores e, até navios ou ainda para unidades evaporadoras onde, posteriormente, serão transformadas em escamas ou blocos sólidos e secos cujo teor de pureza chega a 98% de NaOH. Existem hoje, unidades industriais de enorme capacidade de produção, que suprem, até com folga, a demanda.

A estocagem do produto deve ter critérios, pois trata-se de material que oferece risco a integridade física das pessoas que o manipulam, a terceiros e ao meio ambiente, logo, é norma de segurança a utilização de luvas e óculos protetores e, no mínimo, o acondicionamento a granel deve ser feito em tanques de ferro, polietileno resistente, cimento revestido a epóxi, poliéster ou borracha clorada, deve ter bomba de recalque ou ficar em local favorável à ação gravitacional, onde deve-se prever dois tipos de válvulas para cada saída pois uma é de contenção e outra de segurança, se o produto é fornecido em tambores pode até ficar exposto ao tempo, observadas as condições dos invólucros, pintura, vazamentos, etc.., se estiver acondicionado em sacos plásticos (25 ou 50kg), deverá ser estocado em local seco, fresco e arejado, sobre “pallets” de madeira ou plástico.

O hidróxido de potássio

Designada no mercado por potassa cáustica, é produzido pela eletrólise do cloreto de potássio, é apresentada, comercialmente, em escamas ou líquida em solução a 50%, é bastante higroscópica, é utilizada na fabricação de sabões em pasta ou líquidos. Sua estocagem merece a mesma atenção dedicada ao cáustico anterior.

O carbonato de sódio

Também é conhecido por barrilha leve quando anidro (isento de água), é produzido a partir do sal de amônia e gás carbônico, atingindo alto grau de pureza, até 99% de carbonato de sódio. É menos empregado que a soda cáustica na indústria saboeira, ainda assim, é bem consumido, principalmente, para a fabricação de sabão em pó. Deve ser estocado e manuseado com os mesmos quesitos exigidos pelos alcalinos anteriores.

Os orgânicos

Para um contato, ainda que superficial, com as bases de uso habitual os comentários levados a efeito acima, oferecem uma visão geral suficiente para se fabricar sabões comerciais. Dados de maior profundidade se obtêm em edições especializadas ou na Farmacopéia brasileira e estrangeira em geral. Carece, entretanto, este trecho do que se vos apresenta, uma abordagem, mesmo que também superficial sobre, pelo menos, à principal base orgânica ligada ao ramo particularizado nesta obra. Assim, cabe-nos referir à trietanolamina.

Base amoniacal cuja fórmula geral é (N(CH2CH2OH)3). É um líquido viscoso, límpido, higroscópico, solúvel em água, glicerina e álcool, é um bom emulsionante, é bastante eficiente na formação de tenso-ativos a partir de ácidos graxos, sendo amplamente empregada na produção de detergentes, cosméticos, cremes de tratamento e outros. Sua estocagem é simples, não exigindo demasiada atenção dede que respeitados os cuidados mínimos necessários que qualquer produto reativo solicita. É fornecida em tambores de ferro ou plástico reforçado, não é muito agressiva, nem muito tóxica ao manuseio devendo, no entanto, evitar-se o contato direto com a pele, olhos e mucosas.

Encerram-se, portanto, os comentários sobre as matérias-primas básicas e fundamentais do produto, restam, entretanto, as secundárias ou periféricas como alguns exemplos a saber; catalizadores, clarificadores, corantes, perfumes, aditivos, sais, etc.., considerando apenas o setor produtivo inicial ou primário, logicamente, não devemos ignorar o setor “agente de ligação” com o mercado consumidor e este absorve embalagens e outros. E, insistindo para que a leitura não se torne exaustiva e monótona, cada produto terá seu lugar de destaque no exato momento de uso na descrição do processo de fabricação, como se o estivéssemos usando de fato e levando em consideração as suas características e propriedades.

O próximo capítulo será dedicado à fabricação dos vários tipos de sabão, para tanto, procuraremos vivenciar os momentos relativos à leitura das próximas dissertações, de modo que o Leitor participe das experiências apresentadas, tentando criar entre nós (autor e Leitor), uma possibilidade de diálogo, como se o caro Leitor estivesse dentro dos acontecimentos e, virtualmente, fosse parte integrante da narrativa.

Um comentário:

  1. Olá, sou portuguesa e vivo em Lisboa. Sou uma iniciada nestas lides de fazer sabão. Sigo o seu blog e fico contente por ver coisas novas nele. Esteve muito tempo sem dar noticias.Fico feliz por saber que tudo está bem consigo. Fiz a barra de glicerina, seguindo o seu video, mas não sei se não acertei na quantidade de glicerina (não tinha sorbitol), porque levou quase um mês a solidificar. Pode me dizer a quantidade certa? Se não solidificar, o preparado pode ser utilizado para fazer qualquer outra coisa ou poderá ser salvo? Já lhe havia deixado um pedido no seu outro blog, mas não deve ter visto. O meu email é: yodanaelohim@gmail.com
    Grata pela sua grande generosidade em partilhar o seu conhecimento. Tudo de bom para si e para o seu cachorro. Tive um igualzinho, mas já está no paraíso aguardando a minha chegada (((^_^)))
    Um abraço intercontinental. Ana Maria Duarte

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