SABÃO, ARTE E FILOSOFIA

domingo, 22 de abril de 2012

CAPÍTULO V


Capítulo V

Produzindo o sabão

Adentraremos assim, no pavilhão fabril imaginário, onde iremos elaborar o produto objeto desta obra; o sabão, com as mais variadas versões possíveis. Para chegarmos a ele, discutiremos várias receitas, teremos contato com muitos equipamentos, optaremos quase sempre, por mais de um caminho para uma única solução, decidiremos qual a melhor opção entre os materiais diversos, cometeremos erros e vamos buscar “concertá-los” com mais de uma alternativa, como se isso, mesmo durante a leitura, nos causasse prejuízos, buscaremos ainda, “saídas” inovadoras ou boas idéias antigas, às vezes, até esquecidas, partiremos para a tentativa e erro, em verdade, compararemos a indústria a uma “salada” original cujo tempero principal é a criatividade e o risco de deterioração está no “ranço” das idéias acomodadas.

Falaremos, inicialmente, sobre as receitas, pois delas extrairemos nossa experiência.

A receita “da vovó” de antigamente, era o sabão de cinzas (potássio). Depois de pronto, “ela” colocava sal de cozinha no sabão “pra ficar bão”, o que se sabe é que assim, “ela”, inconscientemente, trocava as bases; i. é, potássio saía, sódio entrava, isso porém, é história.
“A vovó” moderna, já tinha outra receita, pois fazia o mesmo sabão, com sódio, a “velha soda cáustica”. Com certeza, as duas receitas são, de fato, “das vovós”, pois ambas são muito antigas, entretanto, “a vovó” que fazia sabão de cinzas pode ser quase “pré-histórica”, porque, “historicamente” a produção do hidróxido de sódio é uma tecnologia considerada “moderna”.

O sabão de potássio fabricado das cinzas é folclórico em quase todo o planeta, “quase” por precaução literária. É sempre lembrado nos “contos” das velhas fazendas e lugarejos interioranos. Porém, partindo da potassa cáustica (hidróxido de potássio), hoje se fabrica ótimos produtos para uso geral.

O “velho” sabão de cinzas foi, respeitosamente, lembrado com destaque na introdução desta obra “referências históricas...”. Uma observação importante é não confundir “cinzas” com potassa industrial (qualquer apresentação do potássio), utilizada amplamente pela indústria. O sabão de sódio gerou a indústria atual, ele evoluiu e fixou “morada” em nosso cotidiano. As receitas, mesmo as antigas, serão referentes a esse tipo de sabão, “quase sempre...”.

As receitas

Uma antiga: - Sabão em grão de sebo

Hoje, completamente obsoleta, entretanto, uma verdadeira obra-prima do fim do século IXX, trata-se de um sabão de ótima qualidade, porém, os meios de produzi-lo levariam qualquer empreendimento ao fracasso nos nossos dias.

O sebo tem a preferência na aplicação, no entanto, seriam aceitas além dele, outras gorduras, como a de palma, por exemplo, deve-se, contudo, evitar as de empaste (I.S. bem acima de 200). Com a gordura preparada no tacho (consideradas, ao menos, as principais análises), inicia-se o cozimento (vapor indireto), com lixívia inicial de, no máximo, 10°Bé, o batedor deverá estar ligado constantemente, após algumas horas (± 3) nota-se a formação da emulsão bem homogênea, adiciona-se, então, outra parte de lixívia, desta vez, no máximo de 15°Bé, o mais lentamente possível (partindo de um tanque lateral superior, em um filete bem fino) mantendo o batimento sem parar, nota-se novamente que a emulsão volta a ficar estável e com aparência mais definida que antes (isso, de 2 a 3 horas depois), nesse momento, ela apresenta um brilho perolado e escorre em grossos filetes na colher de inspeção (madeira, parecida com um remo), coloca-se aí, o restante da lixívia com, no máximo, 20°Bé e deixa-se bater por mais 6 ou 8 horas em uma temperatura próxima de 95°C, verifica-se, então, o “ponto”, separando-se pequenas amostras da massa sobre a beirada da caldeira ou sobre uma prancheta de madeira, essa amostragem solidificará como cera “dura”, porém macia, apresentará ainda, uma “auréola ou coroa” com vários tons de vermelho, azul e brilho prateado, desliga-se, então, os equipamentos e o vapor, cobre-se o tacho (evitar o choque térmico) e deixa-se em repouso por 12 a 24 horas,a quantidade de sabão é quem determina o tempo (falando-se de mais de 10 toneladas de material). Assim, ocorrerá a estabilização completa da massa, confirma-se o “ponto” e retifica-se, se necessário for, adicionando soda ou gordura em pequenas porções, dependendo da acidez ou alcalinidade observada, liga-se novamente o batedor e leva-se à fervura o conteúdo do tacho por curto período (30 a 60 minutos) até confirmar a neutralização completa pela nova amostragem.

A partir desse ponto, a tarefa é “salinizar” o conteúdo da caldeira, com uma salmoura de 6 a 8% em fervura, “lava-se” a massa por duas ou três vezes, deixando descansar, a cada lavagem, o tempo necessário à decantar a água carregada de sal e glicerina que será escoada por válvula apropriada. Como já se explicou a “micela” ou “bolo” resultante da lavagem irá ao centro do tacho ficando a cada momento mais firme e limpo, mas, ainda será um “creme” muito espesso, porém, móvel, logo, assim que separada a água de glicerina será possível envasar para as formas ou moldes onde o sabão puro tomará forma e solidificará depois de vários dias ou mesmo mais de uma semana. A salmoura da lavagem contendo glicerina, pode ser vendida diretamente aos destiladores, se não houver interesse em destilá-la na própria fábrica. Ao desenformar o sabão, notar-se-á uma tonalidade geral embaçada e, no meio, se verá várias faixas brilhantes de aparência metalizada ou cristalizada e a isso, se dá o nome de fluxo (o embaçado) e grão (o cristalizado).

Logicamente, a própria receita deixa óbvio que ela é totalmente impraticável hoje em dia, principalmente, do ponto de vista econômico, quando, em verdade, é só ele que conta, atualmente. Entretanto, ela é muito útil sob o prisma da didática, esclarece de modo singular, vários detalhes práticos que podem ser aproveitados como base experimental.

Vamos, portanto, comentar esta receita, como se nós a tivéssemos encontrado num “baú” e dela teríamos a pretensão de tirar conhecimentos e formar conceitos atuais para criar um processo eficaz. Ela só, é insuficiente, mas, ainda assim, um bom começo.

Para isso, a análise das transformações físicas ocorridas é mais importante do que a reação química, assim, ácido + base = sal, fim da reação. Como isso ocorreu e por que? é o que nos fornecerá dados para um método alternativo.
No começo do século XX, a conhecida lei da ação das massas era entendida como um fator absoluto que determinava com total rigidez a marcha de uma reação, isso é uma verdade, desde que não se interfira com ela. O homem, entretanto, pode ser um agente de intervenção e já descobriu que existem outras “verdades” que influenciam esta lei natural e que podem até anula-la em condições artificiais. Vejamos, esta lei se apóia no equilíbrio universal, ela diz : “- Quanto maior a absorção, menor a avidez” ou seja, usando a receita, no início da saponificação a reação deveria ser violenta e no fim, dificultosa e até interrompida. Isso, contudo, não ocorreu, por interferência do conhecimento humano, pois a adição de lixívia fraca no início da reação dificulta o contato superficial em grandes proporções e menos álcali penetra as moléculas de ácidos graxos liberando glicerina, já ao final, a colocação de lixívia forte (20°Bé) compensa a dificuldade natural da reação, logo, a velocidade da reação é a mesma do começo ao fim.

Nós, entretanto, não nos daremos por satisfeitos sem, pelo menos, praticar uma experiência. O que aconteceria, se nessa caldeira aberta e com sebo quente, nós colocássemos a lixívia em alta concentração de uma única vez?

Devemos relembrar a afirmação de que, no início, a reação será violenta.
 Mas, a curiosidade é impetuosa e a caldeira é imaginária, portanto, vamos saber até onde vai a violência da reação.

Vamos usar uma lixívia de 38°Bé, calcular a quantidade em função do sebo disponível ligar o batedor, abrir totalmente a válvula da lixívia e, logicamente, sair rapidamente do recinto.

Depois de muitos minutos de espera e suspense bem longe daquele local, notaremos que não ocorreu explosão e nem mesmo algum efeito estranho, com cuidado, voltaremos à caldeira, imaginando que a válvula da soda emperrou impedindo a mistura. Porém, o que notamos é algo que, aparentemente, não tem lógica, assim, deduzimos, apressadamente, que essa tal “lei da ação das massas” está completamente errada, e “não sabe o que faz”! Pois, como nós, “que entendemos de tudo”, poderíamos ter nos equivocado..? além de não cumprir a “promessa” de violência, essa “tal lei”, encheu nossa caldeira de pedrinhas de sebo flutuando na solução de soda..! Isso, “é um abuso”..!

Na verdade, o que ocorreu, de fato, foi uma ação de enorme violência, aliás, tão violenta, que nem mesmo chegou a se concluir.

A explicação lógica é que sendo, o sebo, um material de menor peso específico do que a lixívia, tende a flutuar nesta. O batedor, porém, não permite a separação em uma linha definida entre os dois materiais, pois o braço mecânico não para de agitar o conteúdo do tanque, assim, na lâmina de contato superficial entre os reagentes, a reação ocorre instantaneamente e se contrai na mesma velocidade, mas o braço mecânico, “quebra” a “casca” formada em vários pedaços colocando outra porção dos materiais em contato que reagirão novamente formando nova lâmina que quebrarão em novas lascas.., e assim, até chegar a ponto de ser consumido o sebo em quantidade suficiente para entrar em ação a “lei das massas”, injustamente acusada de ineficiente. As “pedras” que vemos na caldeira são pequenas e muitas ao final, assim, o braço gira e apenas muda-as de lugar porque, por inércia, elas bóiam na soda que não reagiu e o mecanismo não as alcança deixando de exercer ação direta sobre os minúsculos pedaços.

A reação não tem mais como acontecer, o equipamento pode ficar ligado “ad’eterno” , a soda secará por evaporação e o que existirá na caldeira será um pó mal misturado que irritará a pele quando em contato.

Mas, por que as partículas não se transformaram em sabão como se previa..? - por pura falta de superfície exposta! Podemos comparar as “pedrinhas” a um “pãozinho” fresco, o contato com a soda “forte” provoca uma reação muito enérgica ao contato entre as faces (soda/gordura), formando, desse modo, uma “casca” de sabão desequilibrado cujo (p.h.) é muito elevado (alcalinidade alta), devido o excesso de exposição à lixívia durante a flutuação. Ora.., esse efeito age como escudo para o resto do material, por isso temos uma “casca” alcalina protegendo um “miolo” ácido. Poderíamos até discutir a possibilidade de que, com o “passar do tempo” (meses ou anos), a soda por fim atingiria o miolo, analogamente ao efeito da ferrugem nos metais ferrosos, mas, no caso da soda, isso seria impedido pela formação do anidrido carbônico que consumiria esta antes que “esta” consumisse o ácido graxo do “miolo”.

Poderíamos, todavia, considerar que tivéssemos, na caldeira, um sebo inferior com muito ácido graxo livre, nesse caso teríamos, no mínimo, muito sabão de péssima qualidade espalhado pelo recinto da caldeira, pois o ácido graxo livre tende a reagir fermentativamente e com facilidade, pelo fato de já estar livre da glicerina, libera, durante o processo, gás de amônia, resultado da fermentação da gordura, onde micro organismos atuaram realizando complexas reações com o oxigênio e o nitrogênio do ar, isso provoca espuma e, portanto, uma superfície peculiar com medidas estratosféricas e que crescem, diretamente proporcionais a ∏ (pi) vezes o cubo da soma do calor fornecido com o calor produzido na reação, essa expansão é contida apenas pela pressão atmosférica que, pouco ou nada representa, contra a força descomunal da reação, a superfície formada ocasiona um contato íntimo fantástico entre os materiais (ácido e lixívia) e essa reação, depois de iniciada, não permite interrupção dada a velocidade em que ela ocorre. Tais reações já foram responsáveis por enormes explosões em autoclaves, arrastando fábricas inteiras para o “ar”.

O comentário sobre esta receita já nos fez ver que a superfície no processo de saponificação, é fundamental. Ela é, sem dúvidas, a principal responsável por uma reação molecular, vamos guardar essa informação.

Outra receita

Sabão de empaste, semiquente

100 kg de gordura de coco ou palmiste
59 kg de lixívia de 38°Bé de NaOH (soda)
40 kg de silicato de sódio neutro

ou

100 kg de gordura de coco ou palmiste
62 kg de lixívia de 38°Bé de NaOH (soda)
80 kg de silicato de sódio neutro

Coloca-se na caldeira, a gordura e eleva-se a temperatura por volta de até 80°C, num recipiente à parte podemos misturar a lixívia ao silicato e, lentamente, adiciona-se à gordura no batedor, que trabalhará até a emulsão se completar, corta-se o calor (vapor no encamisamento), deixa-se bater por mais uma hora ou pouco menos, o clima da região é quem decide, coloca-se nas formas agitando, ainda um pouco quando se nota o início da solidificação, esse procedimento é desnecessário se o material for envasado para placas de resfriamento, no segundo caso, o tempo de formação é relativamente curto, poucas horas e até minutos dependendo do equipamento utilizado. Depois as placas serão abertas sobres as mesas de corte em “L” (fig. Pág.XX) e forçadas contra um conjunto de fios ou facas com medidas definidas, formam-se, desse modo as pedras de sabão. Esse sistema de cortes, apesar de antigo, é de uso comum em pequenas instalações, principalmente as rurais e, também, pelos fabricantes de sabão de coco a frio.

Esse é o caso de uma receita bem antiga, no entanto, em prática até os nossos dias, por ser extremamente simples e produz sabões populares baratos.

Dedicaremos os comentários dessa receita à prática dos cálculos necessários e que foram apresentados no (cap. II, funções técnicas..). Vamos, novamente, nos utilizar da participação do Leitor para uma maior assimilação da técnica operacional.

Voltamos então, novamente, à nossa “fábrica” imaginária, onde já se encontra na caldeira, a gordura à espera de neutralização.

Conforme a primeira relação de material da receita, nós dispomos, no batedor, de 100 kg de gordura. Pretendemos, por uma questão de custos, independente da qualidade final, que no caso, é pobre nas duas relações, adicionar 40 kg de silicato de sódio neutro na primeira receita e saponificar para obtermos o produto.

Sabendo-se que esta gordura de coco tem um índice de saponificação (I.S.) 253 e vamos trabalhar com uma lixívia de 38°Bé, conforme a receita, podemos ir à tabela 4 (pág.53) e localizaremos lá a quantidade de hidróxido de sódio (NaOH), tecnicamente puro que serão necessários à saponificação de 100 kg de gordura de coco, faremos os cálculos para ajustarmos os pesos correspondentes à solução de 38°Bé, multiplicaremos pelo fator de pureza do produto (100%) e dividiremos pelo fator de pureza comercial (≈98%).

Muito fácil, mas, e se não dispusermos da tabela? Como vamos agir? bem.., nesse caso, a organização prevalece! Nas análises efetuadas para o recebimento do produto consta o peso molecular da gordura, e nós encontramos lá, o número (P.M.221), então continua fácil. Conforme o (Cap. I, 1.3.b – I.S.), iremos proceder o cálculo da seguinte maneira:

(P.M.) = 221 X 3 = 663 de acordo com anotação da (pág.54).

Portanto:

663g-----56g X 1.000 X 3

1g--------I.S. -------► 1g X 56g X 1.000 X 3 = I.S.
                                663g
E, por fim, nós obtivemos o índice de saponificação mais “difícil” e menos “conhecido” de todos os fabricantes de sabão, o “incrível” (I.S.253), para a gordura de coco.

Para continuarmos os nossos cálculos, iremos, agora, ao (Cap.II, funções técnicas...) novamente, e lá, encontraremos no item (2.1.b) a constante de saponificação comercial, i. é, “uma constante prática”, ela é aproximada, porém, muito útil. É a relação que existe entre todos os óleos comuns de mercado e os pesos necessários de hidróxido de sódio tecnicamente puro para a neutralização completa entre eles. Com esses dois dados disponíveis, determinaremos as quantidades de soda indicada, vejamos:

I.S. X 0,0716 = (NaOH)kg --►253 X 0,0716 = 18,11 kg

A partir desse valor procederemos a compensação para o produto comercial, como segue:

Produto puro 100%
Produto comercial 98% logo;

18,11 X 100 = 18,48 kg
    98

18,48 kg de soda comercial a 98% neutralizam 100 kg de gordura de coco.

Ainda nos resta reduzir a 38°Bé esta quantidade de soda. Novamente indo ao (Cap.II), agora no item (2.1.a), lá encontraremos outra constante, esta porém, é exata (técnica), a constante de Baumé, e com ela vamos determinar o peso específico da lixívia de 38°Bé, de acordo com a indicação do item referido, devemos utilizar a 1ª fórmula, pois o peso específico procurado, nós sabemos ser maior que o da água, portanto:

    __145,88___ = 1,352    aproximadamente
    145,88 – 38

Pois bem.., já dispomos de todos os dados, então vamos proceder os cálculos. Conforme a tabela 2, nós encontramos 0,441 kg de soda pura (considerada seca) por litro de lixívia a 38° Bé que pesa 1,352 kg, portanto:

18,48kg = 41,90 litros, onde:
 0,441


41,90 X 1,352 = 56,65 kg

56,65 kg de lixívia, aí está a quantidade em quilogramas suficiente para neutralizar 100 kg de gordura de coco. Mas, como podemos observar, esse valor não coincide com o da relação de materiais da receita, pois lá lemos 59 kg. Bem, ocorre que nessa receita optamos por silicato como “carga” e isso altera o percentual de soda na receita obrigatoriamente, o silicato de sódio absorve o equivalente a 2,283% de soda (NaOH), aproximadamente 7% de lixívia em concentração de 38°Bé, logicamente, se não fornecermos a quantidade exigida, ele a “roubará” do sabão desequilibrando, assim, o balanço na neutralização e por isso nós aplicaremos o percentual correspondente, como segue:

No primeiro caso, 7% de 40 kg de silicato de sódio correspondem a 2,8 kg, assim:

56,65 kg de soda calculada
 2,80 kg p/ compensar o silicato
59,45 kg de soda total

Obviamente, houve um arredondamento de 0,45 kg de lixívia, porém, a esse tipo de receita é um procedimento razoável, pois a qualidade também é “razoável” como já afirmamos.

É claro que a “nossa fábrica”, produzindo esta receita, dificilmente iria dispor das análises referidas, mas cabe notar que é esse o procedimento correto para a obtenção de padrões de destaque positivo no mercado consumidor.

Uma receita “jovem”; - máximo 130 anos, em pleno uso

O sabão preparado a frio

A preparação desse sabão, é de uma flexibilidade, verdadeiramente “milagrosa”, esse é o principal motivo de estar ainda hoje em plena propagação industrial, considerando, quase que exclusivamente, o pequeno produtor, é preparado com “mil máscaras”, mas é, fundamentalmente, o mesmo. A fórmula básica é singular; - 100 partes de gordura de coco, se neutraliza com 56 partes de lixívia de NaOH a 38°Bé, alguns autores recomendam apenas 50 partes de lixívia, sob a alegação de chegar a um produto mais suave apesar de ficarem alguns ácidos graxos livres, o que, em verdade, para a gordura de coco, não exerce muita influência no produto final.

Qualquer gordura ou óleo saponifica a frio, a de coco porém, tem a preferência absoluta, pois o preparo e extremamente simples, os estabelecimentos pequenos utilizam um sistema de grande agilidade e quase sem custo operacional.

Quando recebem a gordura de coco, normalmente em tambores de 200 kg de material, eles, inicialmente, “juram sobre a bíblia” que as análises foram realizadas, então, com um simples fogareiro a gás, fundem completamente a gordura no próprio tambor, depois envasam o conteúdo em um equipamento muito comum nos porões das velhas padarias, conhecidos pelo nome de “amassadeiras ou masseiras”, cuja capacidade de mistura é de, aproximadamente, 300 kg, ligam a máquina e, lentamente, deixam escorrer 100 kg de lixívia a 38°Bé, em menos de 60 minutos o produto está nas formas, desde que não se acrescentem cargas.

O comentário dessa receita, nós dedicaremos ao comprometimento do “ganha-pão” dos “Gurus do sabão” alinhados nos classificados dominicais “...aprenda a fazer sabão quase de graça...”! esse “quase de graça...” deixa qualquer um na miséria.
Como já afirmamos, essa fórmula é de grande versatilidade, isso devido ao fato de que a gordura de coco absorve quantidades enormes de salmoura ao limite da saturação (24%) ou seja, com 50 kg de gordura de coco, nós conseguimos, se quisermos, inserir 250 kg de solução de sal a 23°Bé, e isso requer pouquíssimos cuidados e é muito fácil; vejamos o rendimento:

 50 kg gordura
 25 kg lixívia
250 kg salmoura a 23°Bé
325 kg total de sabão ou quase sabão

Esse é um resultado impressionante e alentador para um consumo popular de poucas exigências no que refere a qualidade.

A estas categorias de sabão, os profissionais “carinhosamente” apelidaram de “água em pé”, o que nada mais é, do que o aperfeiçoamento tecnológico do “ovo de Colombo”.

Agradecendo a “paciência” com o humor dessas linhas, nós iremos agora, produzir uma versão desta receita que fará “corar de inveja” os “Gurus do sabão” apenas pelo preço pago pelo Leitor por este manual.

Vamos então, voltar ao pavilhão da “nossa fábrica”, para produzir um sabão de coco verdadeiramente industrial, prático e popular, terá a aparência e a qualidade compatíveis com um custo plenamente viável ao consumidor.
Primeiramente, precisaremos do equipamento, que deve, obrigatoriamente, custar pouco, porque a “nossa fábrica” é nova e com pequena disponibilidade financeira.

Nós usaremos como “tacho” uma “caixa d’água”, essas redondas de plástico reforçado, são ótimas, sua capacidade deve ser de 500 ou 1.000 litros. Mas.., como iremos lidar com o aquecimento? - Lógico, uma caixa d’água não é uma caldeira!

Bem.., uma vez que não se pode “sair gastando” o jeito é não usar calor, assim, economizamos energia e dinheiro e, de “quebra” ganhamos tempo na produção. Fazendo o produto a frio, este livro diz que a “gente” só sai ganhando, vamos ver.

No “tacho” já demos “um jeito”. E o batedor? Ele é um equipamento caro e mais ou menos complexo para “dar um jeito”. Devemos, então buscar outra saída, alguma coisa que parece “esquisita” porém, pode funcionar. No “porão da nossa fábrica” tem uma bomba centrífuga velha, “grandona” e meio desajeitada, usada quando a água era “de poço”. Sua “garganta” de entrada mede umas duas polegadas de diâmetro e a saída por volta de uma e meia polegada, qualquer material líquido ou viscoso que passar por ela, sofrerá uma alta compressão e um movimento intenso, ora..! não é isso o que buscamos com o “batedor”? apenas que, ao contrário de colocarmos o “batedor” no líquido viscoso, este é quem irá até ela, “a bomba batedora”, por meio de tubulação própria que deverá ser de ferro para não “arrebentar” com a pressão e o calor produzido no caminho. Ligaremos tudo e providenciamos um desvio na tubulação que retorna ao “tacho”, para quando soubermos que o produto esteja pronto para envase, transferi-lo para as formas.

Pronto, batizaremos o “nosso invento” de “reciclador”, pois o material fica entrando e saindo continuamente (reciclando) através da bomba até ser desviado para a forma. E, tenham certeza, muitos tipos de material são possíveis de se fazer neste “equipamento” (abaixo, um exemplo de reciclador).

Batimento por reciclagem

Fig. 18 – reciclador com tanque lateral

Agora já podemos produzir o “sabão nosso de cada dia”! Com um fogareiro a gás ou elétrico fundiremos a gordura de coco no próprio tambor, sem, no entanto, aquece-lo demais (lembre-se do “tacho” que é de plástico), aquecesse apenas o suficiente para escoa-lo pelo gargalo da embalagem, passamos o conteúdo para o reciclador através de uma peneira ou podemos utilizar a própria bomba para recalcá-lo fazendo passar por um filtro que pode até ser improvisado, o que não é muito difícil, termos assim, 200 kg de gordura no tanque, no inverno ou em regiões frias, não podemos esquecê-la por muito tempo no reservatório sem trabalhá-la, pois ela se solidificará rapidamente.

Num recipiente à parte, já devemos ter preparados 200 kg de salmoura a 23°Bé totalmente solubilizada sem material sólido decantado no fundo (sal), em outro depósito já dispomos de 100 kg de silicato de sódio neutro misturados com 8 kg de lixívia de soda a 38°Bé, ainda temos, também, 100 kg de lixívia de soda a 38°Bé. Com todo esse material a disposição, o único problema é mistura-los com estabilidade, pois é muito fácil “quebrar” a emulsão e o sabão “talha” como leite que “azeda”. A salmoura e o óleo oferecem uma resistência muito acentuada contra a estabilização da emulsão, ainda que se acrescente o silicato e o hidróxido de sódio, a dificuldade é grande, em verdade, a emulsão é possível, porém a um custo bem alto demandando excesso de tempo e de energia. É preciso outra “saída daquelas...”, viável e muito simples, pois o dinheiro é “curto” e um erro põe tudo a perder.

Existe no mercado, um produto que mistura água e óleo, trata-se de um poderoso emulsificante sintético o, “nonil fenol de óxido de etileno”, o mais indicado, é o de 9,5 moléculas de óxido de etileno, ele é muito eficiente, com 1% do peso do óleo se consegue mais do que um “simples milagre” ele faz o “impossível”, mantém, por tempo quase indefinido uma mistura perfeita da água com o óleo, como o leite. Mais do que isso, ele proporciona uma superfície literalmente “infinita” entre as fases (água/óleo), lembram do que falamos sobre a “superfície”, em verdade, quando se liga a bomba, em questão de minutos e muitas vezes, “em questão de segundos” o material fica pronto sem nenhum risco e nem mesmo apresenta aquecimento, a reação é tão rápida que não há tempo para a “exotermia” (aquecimento espontâneo) se manifestar. O principal, é que o custo desse produto é compatível com a quantidade necessária não representando nenhum acréscimo significativo no custo primário.

Produzir sabão assim, virou um verdadeiro “carnaval”. Coloca-se tudo no reciclador de qualquer jeito, rapidamente, lentamente, quente, frio, tudo de uma só vez, uma coisa de cada vez, com mistura prévia ou não, na verdade, seria necessário inventar algo inusitado para conseguir errar esse sabão, seria questão de promover uma gincana para achar alguém capaz de dificultar a saponificação.

O resultado é um sabão muito branco, macio, agradável ao tato e muito durável, se eliminada a salmoura e abaixado o silicato ele será totalmente mecanizável e “briga” de frente com qualquer multinacional. Sugerimos aos profissionais uma análise da estrutura cristalina desse produto.

No entanto, cabe uma observação de suma importância, durante o processo, quando se notar no reciclador, que a emulsão começou a formar um creme suavemente viscoso, deve-se abrir imediatamente a válvula de desvio e, através de uma mangueira ou tubo passa-se o material para as formas se for o caso e, em 30 minutos, no máximo, o material poderá ser cortado.

 É muito importante o acompanhamento da reação para envasar na hora certa, pois antes do “ponto” a mistura não fica homogênea e, depois do “ponto”, a reação ocorre num todo e progride em velocidade uniforme. Se descuidar, ganha-se um bloco redondo de sabão no tanque, nos tubos e, o mais “interessante”, na bomba, porém, nada que um britador não resolva.

Se desejarmos um sabão mais pobre, essa receita suporta “heroicamente” mais 100 kg de salmoura. O silicato pode ser, simplesmente suprimido, juntamente com o percentual de lixívia. É conveniente não aumenta-lo, pois a quantidade aqui sugerida está já, bem acima da ideal, muito silicato provoca o efeito da “barba” depois de alguns dias, como já informamos.*



*Lembrem-se que as receitas aqui colocadas são quase centenárias, hoje com a prática cotidiana dos artesãos (ãs) existem métodos mais rápidos e com a mesma eficiência e qualidade das antigas formulações, as técnicas são as mesmas apenas nota-se mudanças na metodologia aplicada.
Abraços, Marcus. 

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